O texto a
seguir será utilizado para interpretação escrita e debate na aula do dia 13 de
outubro. Leia-o com atenção, anote dúvidas e questionamentos.
Sou um aspirador de pó
Se quiser me ofender, terá trabalho.
Não facilito a vida do agressor.
Ele vai suar frio, passar sufoco, esclarecer questões, explicar
posicionamentos.
Não sairei de cena chorando logo que ganhar um desaforo. Não aceitarei o
figurino de vítima. Não me farei de coitadinho. Não me trancarei no quarto. Não
evitarei o convívio.
Sou muito escolado em bullying para acolher rapidamente desaforo. Só eu
mesmo posso me ofender e me perdoar – mais ninguém.
É o que todos deveriam pensar antes de sofrer.
O debochado não tem repertório. Ele guarda uma ou duas tiradas
engraçadas que podem ser rebatidas com a autocrítica e inteligência.
Não se veja derrotado no início do jogo, não se enxergue constrangido por
antecedência.
No Ensino Fundamental, na abertura das aulas, Marquinhos, líder da
bagunça e das baixarias, buscou me humilhar na frente dos colegas. Quando a
professora abandonou a
sala para
repor o giz, aproveitou a ausência e se aproximou de minha mesa.
Ele me analisou, analisou e despejou o veredito:
– Você tem cara de “aspirador de pó”.
O novo apelido vinha do nariz avantajado. Era uma versão doméstica para
tamanduá.
Pronto: a turma inteira gargalhava alto de mim. A investida sugeria uma
desmoralização do nome e sobrenome dali por diante.
Mas engoli a vergonha como uma aspirina a seco. Respirei fundo. E, de
modo inédito, diferente de todas as vezes que me tolhi e me escondi, que fechei
meu rosto nos
braços,
decidi responder. Concordei com a observação.
– Sim, eu sou um aspirador de pó.
Ele não atinou o que desejava concordando, e completei:
– Sou mesmo um aspirador de pó, que bom que você descobriu. Vem trocar
meu saco!
Ele se calou. A turma agora reagiu a meu favor, dobrou o volume das
risadas. Foi uma histeria coletiva, cadernos voando, pés batendo no chão,
palmas estalando.
É certo que ele não sabia o que retrucar. Comeu a língua. Patinou na
palavra. Demorou a perceber o estrago. Ficou branco, pálido, lesma.
Não contava com uma reação bem-humorada. Uma resposta espirituosa. Quem
agride não programa a tréplica. Planejava criar uma tristeza em mim e abandonar
a vítima no chão.
Mas não deixaria por menos. Nunca mais.
Marquinhos desapareceu ao longo do tempo, como poeira ranzinza da
classe. Não esperava que o aspirador de pó estivesse ligado.
Fabrício
Carpinejar, Zero Hora, 30 de abril de 2013.
Boa leitura.
Maravilhoso! Traz muitas reflexões.
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